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O Amor Que Morreu de Medo

Existem amores que não cabem no tempo. Eles chegam sem aviso, atravessam a vida como tempestade, confundem céu e mar, acendem uma chama que não se apaga fácil. São encontros que parecem escritos pelo universo, mas destinados apenas a deixar marcas, não permanência.

Esse encontro foi assim. Palavras de intensidade, coração exposto, medo de errar. Nas entrelinhas, confissões que a voz não sustentava. Num dia, a chama inédita acesa em si. No outro, a fuga para a lógica, a segurança, o caminho já traçado muito antes de me conhecer. Deu um lado o sentir. Do outro, uma alma evitativa, sempre presa ao controle. O resultado? Um amor imenso e interrompido. 

Releio as palavras deixadas em cartas, fragmentos, coragens e covardias, e compreendo que não era para durar. Era para incendiar. Era para tocar fundo e depois seguir, cada um com a marca desse fogo. Houve a escolha pelo conforto. Eu escolhi o risco. E ainda assim não existiram derrotas. Houve vida, verdade e encontro.

Se volta? Não sei.
Se ainda sente? Talvez.
O que sei é que em mim já não há vício nem espera. Só a memória de um amor que brilhou como sol e se recolheu como lua. Mas entre nós havia um abismo. O meu coração pronto para saltar. O outro preso à margem, paralisado pelo medo. Um coração que tremia diante da coragem que o amor exige. Um coração que confessou estar apavorado em errar, em saltar, em deixar ir. E então veio a covardia disfarçada de razão, onde precisava escolher um coração para quebrar, optar pelo “menos dolorido”, pelo “compatível”, pelo que não exigia a ousadia de despir-se inteiro, seguindo o bom e velho plano.

Me vi em peda
ços.

Assim, morreu em silêncio um amor que poderia ter sido um novo mundo. Não por falta de sentimento, mas por excesso de medo. E nisso, eu aprendi que o amor não morre quando acaba, ele morre quando alguém não tem coragem de vivê-lo e hoje sei que a falta de coragem do outro não falava de mim, mas da luta interna, do vazio carregado, da recusa em se transformar.

Talvez ainda haja releitura, lembrança, sonho. Mas nunca houve salto. E eu não posso amar por dois.
Há amores que não são feitos para ficar. São feitos para nos mostrar quem somos quando amamos.

E eu amei.